Buscar

TEMPESTADE TROPICAL NO ATLÂNTICO SUL?

A última semana foi marcada por diversas matérias e transmissões ao vivo pela Conexão GeoClima e a Sigma Meteorologia, informando que o ciclone extratropical que estava sendo projetado não seria parecido com o ciclone bomba que ocorreu em 30 de junho de 2020, mas seria explosivo em alto mar. Desta vez podemos concluir que ambos tiveram suas particularidades. Entenda:


RELEMBRANDO

Em junho de 2020, um derecho causou severos danos entre Santa Catarina e o centro-sul do Paraná. Este fenômeno atmosférico se formou por causa da frente fria que avançou muito rapidamente em decorrência da queda rápida da pressão atmosférica (ciclogênese explosiva). Essa poderosa Linha de Instabilidade causou a morte de 13 pessoas, sendo 11 em Santa Catarina, 1 no Rio Grande do Sul e 1 no Paraná. Aproximadamente 1,9 milhão de consumidores ficaram sem energia elétrica por vários dias. Já o ciclone bomba manteve as fortes rajadas de vento pelo litoral do RS, SC e PR entre a noite do dia 30 de junho, e principalmente entre a madrugada e manhã do dia 01 de julho, causando forte ressaca, prejudicando a navegação de barcos de pequeno a médio porte, queda de árvores e postes, entre outros problemas.


AGORA...

O ciclone extratropical descrito nas previsões do tempo da Sigma Meteorologia, parceira da Conexão GeoClima, seria de forma explosiva, mas em alto mar, porém certas características não foram projetadas pelos modelos meteorológicos, e iremos falar agora. Veja:


De acordo com o monitoramento do NOAA (Administração Nacional Oceânica e Atmosférica), às 14h30min de sábado (06/02), o ciclone extratropical tinha "características tropicais suficientes para serem classificadas" com "convecção moderada e circulação isolada do sistema frontal". Sendo assim, a baixa foi nomeada de "01Q". Essa designação é padrão para sistemas tropicais por parte do NOAA no Atlântico Sul. Mais tarde, por volta das 20h30min, um novo boletim foi emitido pelo NOAA onde dizia que o sistema "não aparentava mais ter características tropicais", tornando assim, subtropical.

Em tese, o sistema tropical durou apenas algumas horas no decorrer da tarde de sábado pelo boletim do NOAA. O sistema atingiu a escala 2.5 DVORAK, compatível com ventos de tempestade tropical mínima de 65 km/h, tendo pressão mínima estimada, enquanto tropical, de 997 hPa.

Por imagem de satélite é possível observar a baixa desprendida do sistema frontal.

É possível também ver a convecção em torno da baixa, ainda que limitada e fraca, compatível talvez com uma tempestade subtropical ou tropical muito fraca.

Dentro do Brasil, a tempestade tropical classificada pelo NOAA, passou completamente DESPERCEBIDA. O CHM (Centro de Hidrologia da Marinha), órgão oficial responsável por nomear ciclones deste tipo, ignorou completamente qualquer classificação subtropical ou tropical e mostrou na sua carta sinótica o sistema como EXTRATROPICAL.

Não é à toa que a tempestade tropical ficou conhecida como "01Q" apenas, uma vez que a Marinha do Brasil não a nomeou. O CPTEC (Centro de Previsão do Tempo e Estudos Climáticos) seguiu o mesmo caminho e deixou como ciclone EXTRATROPICAL. Outros institutos e órgãos meteorológicos também não mencionaram em nenhum momento a evolução desta baixa em sistema tropical por causa dos modelos que não projetaram uma intensificação tão significativa, apenas o modelo GFS.

A página internacional de ciclones tropicais da Wikipédia registrou a "TEMPESTADE TROPICAL 01Q".

Vale frisar novamente que a temperatura da superfície do mar está muito acima da média na costa da região Sul do Brasil. Valores de 26ºC (suficientes para ciclogênese subtropical/tropical) já eram observados na costa do Rio Grande do Sul desde o começo do mês.

Também vale salientar, que o modelo meteorológico GFS, em uma solução (projeção) a 1 semana atrás apontou uma formação de tempestade tropical de forma muito objetiva em uma corrida. Um ciclone com seclusão (separação, isolamento), quente em baixa troposfera (900-600 hPa) e média-alta troposfera (300-600 hPa), raramente é projetado em modelos para o Atlântico Sul.

É a primeira vez que um sistema subtropical/tropical ficará sem nomeação, desde a designação do CHM para classificar esses tipos de ciclone em 2011. A última vez que uma tempestade tropical se formou, sendo classificada pelo NOAA, e que não ganhou nomeação foi em 2006 em alto mar.


Veja abaixo a lista de ciclones tropicais/subtropicais que se formaram no Atlântico Sul:

  1. Tempestades tropicais conhecidas:

  • Ciclone tropical de Angola em abril de 1991;

  • Depressão tropical em janeiro de 2004;

  • Furacão Catarina em março de 2004;

  • Tempestade tropical Anita em março de 2010;

  • Tempestade tropical Iba em março de 2019;

  • Tempestade tropical 01Q em fevereiro de 2021.

2. Tempestades subtropicais conhecidas:

  • Tempestade subtropical Arani em março de 2011;

  • Tempestade subtropical Bapo em fevereiro de 2015;

  • Tempestade subtropical Cari em março de 2015

  • Tempestade subtropical Deni em novembro de 2016;

  • Tempestade subtropical Eçai em dezembro de 2016;

  • Tempestade subtropical Guará em dezembro de 2017;

  • Tempestade subtropical Jaguar em maio de 2019;

  • Tempestade subtropical Kurumí em janeiro de 2020;

  • Tempestade subtropical Mani em outubro de 2020;

  • Tempestade subtropical Oquira em dezembro de 2020.

Fonte: BAZ - Brasil Abaixo de Zero (discussão de fórum sem fins de previsão meteorológica)