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COBRA TEM VISÃO INFRAVERMELHO, PISCA E ESCUTA? VAMOS APRENDER?

"Uma cobra piscou pra mim". Você já ouviu alguém falando isso? Será verdade que estes incríveis répteis podem fazer isso? Quer descobrir? Vem junto com a gente nesta matéria explicativa elaborada pelo divulgador científico Otávio Vulcão.


Dentre os Répteis Squamata, com certeza as Serpentes destacam-se pelas mudanças sensoriais comparadas as de outros animais: desde uma visão infravermelha ou uma modificação na capacidade auditiva.


VISÃO INFRAVERMELHA DAS SERPENTES

As cobras são incríveis devido as diversas modificações no corpo, fisiológicas e comportamentais. Dentro dos "superpoderes" que desenvolveram, algumas adquiriram algo digno de visão do Superman.


O espectro eletromagnético é uma faixa de ondas de diferentes comprimentos que variam desde algumas que podemos detectar visualmente (a "luz visível") e outras que nós, humanos, não conseguimos. A radiação infravermelha é uma parte dessa grande faixa que não detectamos.

Radiação Infravermelha é emitida por qualquer corpo acima do zero absoluto, diferente da luz visível que para detectamos depende de um emissor externo refletindo em um objeto, absorvido pelos nossos olhos e processado em imagem.

Infravermelho não é o mesmo que calor, contudo essa radiação provoca o aquecimento nos objetos que a absorvem, e é esse equipamento que ativa os termo receptores de algumas serpentes.

Três grupos de serpentes atuais detectam RI através de estruturas específicas:

  1. Família Boidae (p. ex. gênero Corallus)

  2. Família Pythonidae (p. ex. gênero Morelia)

  3. Subfamília Crotalinae (p. ex. todas dos gêneros Bothrops, Crotalus e Lachesis).

Nos boídeos as escamas supra e infralabiais (escamas acima e abaixo da boca) apresentam uma série de terminações nervosas, detectando as emissões de radiação infravermelha.

Pítonideos tem fossetas nessa região e as terminações nervosas estão ao fundo da fosseta.

Já os Crotalíneos tem apenas duas fossetas, uma de cada lado localizadas na escama loreal, sendo chamadas de fossetas loreais.

Ser capaz de detectar essa faixa do espectro é extremamente útil para caçadores noturnos, que estão impossibilitados de ver devido a ausência de luz. Outro ponto importante é que assim eles poderão notar variações no ambiente, detectando facilmente presas.


AS COBRAS SÃO SURDAS?

Encantadores de Serpentes encantam mesmo? Elas podem “ouvir” você se aproximando enquanto caminha em uma trilha florestal? Vamos falar um pouco sobre a audição desses incríveis répteis!


Pra começar: cobras não são surdas. Bom, pelo menos não completamente. A audição é essa forma que temos de perceber o mundo através do recebimento de ondas de som através do ar. O som pode se propagar também nos meios sólido e líquido - como a água.


O ouvido dos tetrápodes (Anfíbios, Répteis, Aves e Mamíferos) pode ser dividido em três partes: Ouvido interno, ouvido médio e ouvido externo. Lembrando sempre que existem várias exceções da forma dessa estrutura, e serpente apresenta uma dessas exceções.


Esse esquema gráfico bem ilustrado é retirado do livro "Herpetology", de 2013. Nele temos o exemplo do ouvido de um lagarto. Como vocês podem notar há várias pequenas estruturas, mas não nos ateremos aos detalhes. Apenas gravem esta imagem!

Podemos pensar que o aparato auditivo é como um transporte de carga: a carga é depositada no porto (ouvido externo) que a transfere para o barco (ouvido médio). O barco irá levá-la até seu destino final que irá processar o material (ouvido interno).


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O que chamamos de ouvido externo é onde está o tímpano, uma membrana responsável por captar as ondas de som e transmitir aos ossículos – pequenos ossos – do ouvido médio. Pense em como os tambores são usados: batendo em membranas elásticas bem esticadas.


As cobras não tem tímpano! Surpreso? Aposto que não, porque você já deve ter notado bem que as cobras não tem nada no local que, supostamente, deveria ter. Elas também não possuem o ouvido médio desenvolvido. Nesta caminhada, só nos restou o interno.

"Okay” – você irá se perguntar – “elas não têm nem tímpano e nem ouvido médio, mas lá no início você disse que elas não são surdas”. Sim, e por isso vamos voltar ao nosso último integrante: o ouvido interno.


É conhecido que as cobras tem um osso chamado “columela” no equivalente ao local do ouvido médio. Esse osso tem ligação com o “quadrado”, um osso da porção superior da mandíbula. A columela é capaz de transmitir vibrações para o ouvido interno.

E aí vai mais uma bomba: elas podem captam vibrações pela mandíbula! Os tecidos e ossos dessa região detectam vibrações no solo, por exemplo. A vibração passa pela columela e vai para o ouvido interno. Pois é, Watson, temos um Xeroque Holmes aqui.

O trabalho de Christensen e colaboradores verificou isso ao implantar eletrodos em Pítons (Phyton regius) e verificarem o comportamento cerebral delas como reação aos estímulos vibracionais. Isso expandiu nossa compreensão dos sentidos das serpentes.


“Que legal, então elas são mesmo encantadas pelos músicos!” – Não se precipite. Mesmo que elas não sejam surdas, elas ouvem em frequências sonoras diferentes das nossas – entre 50 e 1000 Hz – e, portanto, a música não tem influência sobre elas.


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Agora você já sabe: serpentes não são surdas, mas não quer dizer que elas ouvem como nós. Na verdade, os sentidos das cobras são beeeem diferentes dos nossos.


AS COBRAS PISCAM?

Falando dos olhos, quem não ama ver um animalzinho piscando? Achamos tão fofo... Também adoramos usar a "piscadela" pra chamar a atenção do/a crush na festa, ou para alertar alguém.


Nossas amiguinhas não tem pálpebras! Okay... seria tão surpreendente assim? Algumas pessoas dizem que é incômodo olhar para uma cobra: sempre é uma visão fixa, como se ela olhasse apenas para você.

Foto: Coleman Sheehy III

Primeiro, vamos dar uma revisada sobre os olhos. Nossos olhos servem para formar "imagem", descrever de forma mais detalhada o mundo, e não apenas detectar diferenças de luz no ambiente. Aqui trago um esquema bem resumido de como é o olho de uma serpente. Prestem atenção!!!

Vocês notaram que na imagem anterior eu deixei de fora o "spectacle"? Também chamado em inglês de "brille". Pois bem, entusiastas dos répteis, é ele o diferencial. Ao invés de pálpebras, as cobras tem essa estrutura revestindo os olhos e os protegendo.

O "spectacle" também é chamado de "escama corneal" neste trabalho de pesquisadores da Universidade Federal de Viçosa (dá um oi quem for da UFV), que tratam de um caso clínico de Urutu.


Link: https://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0103-84782014000600021


Qual a diferença dessa estrutura para outras dos olhos? Essa Periquitambóia nos ensina. Repare, ela está trocando de pele, basicamente tirando as escamas velhas e trocando por novas. A escama ocular vai junto, porque ela faz parte da pele externa - epiderme - do animal.

A título de comparação, vejam o olho de um Primata "superior" - ou seja, com características mais novas evolutivamente. Não há nenhuma camada de pele, e ali temos a pálpebra, nossa fiel escudeira na limpeza e lubrificação da córnea. Desenho de Kardong, 2016.

Outra coisa bem legal para comentarmos, é que as pupilas são os "seguranças" da entrada de luz. Serpentes com a pupila fendida não necessariamente são assim por serem noturnas, mas porque elas precisam desse "gerenciamento" para caçar, por exemplo.


Essa aqui é uma Cascavel americana (Crotalus horridus) que tem a pupila maior, mais dilatada. A dilatação serve para captar mais luz do ambiente. Já a contração feita por essa <Daboia palestinae> ocorreu para ela conseguir filtrar o excesso de luz.

Temos exemplos de espécies de hábitos noturnos que não tem a pupila fendida a todo momento - o que chamamos de "pupila elíptica". Isso também não significa que o animal é peçonhento. Generalizações nos induzem a erros dentro da biologia!


Portanto: serpentes não piscam! A não ser que achemos alguma exceção - e se alguém souber, me avise - é mais fácil sua mente ter te enganado. O que não é difícil.


Gostou dessa "aulinha"? Corre agora no perfil do Otávio Falcão. Por lá você encontra várias histórias interessantes!


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