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Como observar e fotografar a Via Láctea?

É incrível saber que podemos observar o centro da nossa galáxia aqui da Terra. E o melhor: não precisamos de um equipamento específico para fazer tal observação. Um lugar com pouca iluminação artificial e uma noite sem a Lua cheia no céu é tudo que você precisará.


Nós habitamos em um dos braço da Via Láctea, chamado de braço de Órion, para localizar, basta encontrar a constelação de Escorpião - quase todas as estrelas que conseguimos observar no céu noturno estão num raio dentro deste braço - e nós completamos uma órbita ao redor do buraco negro central de nossa galáxia a cada 225 milhões de anos - isto significa que desde os primeiros indícios de vida fossilizada na Terra no período Cambriano na Era Paleozóico há 541 milhões de anos atrás, ainda estamos a 9 milhões de anos pra completar a segunda volta ao redor da nossa galáxia no mesmo ponto em que ocorreu a famosa explosão da vida do Cambriano. Com isso, temos pela nossa posição na Via Láctea junto com o ciclo de nossa translação ao redor do Sol, um período ao qual o núcleo da via láctea está visível, durante a noite; e um período ao qual não está visível, por estar em oposição ao nosso planeta em relação ao Sol, significando que sua localização no céu, se dá durante o dia, impossibilitando sua observação.


Caso você tenha dificuldades para encontrar a constelação de Escorpião no céu, utilize um aplicativo que simule o céu e quando achar a constelação e estiver em um local bem escuro você irá perceber uma mancha difusa no céu que se assemelha com um céu nublado. Essa mancha na verdade é o centro da nossa galáxia.



Árvore sob a luz da Lua e da Via Láctea no Atacama (Foto: Nicholas Buer/Corbis)


Existe uma escala que mede a quantidade de poluição luminosa, chamada de "Escala de Bortle", que é dividida em níveis de 1 ao 9. Podemos observar a Via Láctea a partir do nível 5, que seriam as zonas rurais, lugares com pouca iluminação.



A Escala de Bortle. (Imagem: Reprodução/Internet)


Agora, se sua intenção é também tirar fotos da via láctea, em nível 4 ou inferiores, você já consegue captar ela pelas suas lentes, mas para isso, será necessário usar o modo de longa exposição. Hoje, existem celulares com esse recursos, e mesmo com sensores bem menores que aos das câmeras, conseguem capturar a Via Láctea. Ao menos o centro dela. Explicando: o centro da Via Láctea onde habita o buraco negro da nossa galáxia, é o ponto mais brilhante da via láctea a ser observada no céu.


O período ao qual o centro da via láctea está visível para nós no hemisfério sul, é de Fevereiro a Novembro - No Hemisfério Norte é de Março a Dezembro - e o período ao qual é mais visível é em Junho, quando é possível observá-la e fotografá-la durante a noite toda com se nascer e seu poente, pois esse período é quando o Sol está em oposição tanto a Terra quanto ao centro da nossa galáxia. E ao observarmos o centro de nossa galáxia, veremos também sobreposição de seus braços que estão entre o nosso Braço de Órion e seu centro, estes são os Braços de Carina-Sagittarius, Norma e Scutum-Crux. E como nossa galáxia é espiral, estarão sobrepostas sobre um único feixe.


Porém, também é possível fotografar a via láctea, mesmo quando o centro não é visível. Você conseguirá observar o Braço de Perseus, o que também rende boas fotos em composições. Mas como é menos brilhante, precisa estar em céus de níveis 1 e 2 da Escala de Bortle que mencionamos lá no começo. E se você tiver uma câmera modificada para astronomia - sim, existem, porém você terá que modificar por conta própria - você conseguirá capturar a "Gum Nebula" - Nebulosa Chiclete - que aparece como uma grande bola vermelha, que acredita-se que sejam materiais remanescentes de uma explosão de Supernova, visível na constelação de Vela.


Seja o Braço de Perseus ou o centro da via láctea, é sempre bom utilizar aplicativos e sites para planejar sua fotografia e composição, independente do lugar que esteja, pois a via láctea mudará de posição, tanto durante a noite, quanto de acordo com a Latitude que você estiver.


Crédito do Vídeo: Iago Siqueira/Iago Storm.


No vídeo acima podemos ver o nascer do centro da via láctea registrada em modo time-lapse e percebemos sua movimentação sentido SE - L (Sudeste pra Leste) a medida que sobe no céu.


E a medida que você for se distanciando do Equador, mais inclinada estará a Via Láctea, e se você estiver diretamente no Equador, verá a Via Láctea nascendo horizontalmente no céu. No hemisfério norte, sua aparência estará "de cabeça pra baixo", em relação a como a observamos daqui do hemisfério sul.


Curioso ver que no centro sul do Brasil, praticamente não existem mais céus escuros, isso inclusive se tornou problema nos EUA, onde existem regiões preservadas com zero poluição luminosa com projetos só para os norte americanos que nunca puderam ver estrelas e a via láctea, conseguirem observar. No Brasil temos ainda o Centro Norte do país com visualizações perfeitas do céu noturno, porém, necessita-se planejamento e preparo.


Para tirar fotos de um local é preciso pesquisar como é o lugar e se possui uma composição ao qual poderá observar.


Primeira coisa a se considerar é seu equipamento. Qualquer câmera que tenha o modo de longa exposição, ao qual o obturador ficará aberto por alguns segundos, já servirá para realizar a fotografia, mas cuidado com os segundos. A Terra gira e por isso, as estrelas estarão se movendo na proporção da rotação da Terra, e se você deixar a câmera fotografando tempo demais, você provocará rastro nas estrelas, pois a câmera registrará o movimento que elas farão. O tempo ideal para evitar estes rastros dependerá da câmera e lente que você possui.


Para saber quantos segundos você poderá deixar fotografando antes das estrelas criarem rastros, existe a "Regra dos 500", ao qual você pegará 500 e dividirá pela distancia focal de sua lente - aqui suponhamos que seja 20 mm - no caso, 500/20 = 25 segundos; você poderá manter o obturador aberto por 25 segundos. Isso se você fotografar com uma câmera full frame. Se você utiliza uma câmera acropada, troca 500 por 300. E no caso de câmera micro 4/3, utilizará 250 para dividir.


Por exemplo, com uma Canon DSLR com sensor CMOS APS-C, o tempo ideal para a astrofografia é de 13 segundos.


Dito toda essa escala de tempo, é importante priorizarmos a questão do tripé. Pois pelo menos onde eu moro e nos arredores, principalmente na praia onde tirei a foto que verão a seguir, venta muito. E se onde você for fotografar estiver ventando razoavelmente, com um tripé simples, suas fotos em longa exposição ficarão tremidas, para isso, importante um tripé robusto e pesado para aguentar. É um investimento alto que é necessário para este tipo de fotografia, afinal, não queremos andar vários km para algum lugar, estar com o céu limpo e acontecendo algo bem fotogênico nos céus e você não poder fotografar como quer por causa do vento, não é mesmo?


Crédito da Imagem: Gabriel Zaparolli/Torres-RS.


Além disso, recomendo lentes com grandes aberturas. Com 3.5 você já consegue fotografar - como na minha foto que mostrei, tirada com lente do kit 3.5-5.6 de abertura. Abertura será sinalizada com a letra "f" nas lentes. Porém, se você tiver lentes com f 2.8 e 1.4/1.8, você conseguirá os melhores resultados em astrofotografia.


Outro fator importante do seu equipamento no momento da fotografia, será escolher seu ISO. Há mitos que quem é da área da fotografia já deve ter ouvido, que é: quanto maior o ISO, maior o ruído. É um mito, como já tinha dito. Não tenham medo de usar o ISO. Porém, sempre utilize de acordo com o necessário para seu ambiente e sua composição. Se possível, libere o ISO expansível da sua câmera para ter mais opções. De acordo com a câmera, a qualidade em cada ISO irá variar, por isso é importante testar e praticar com seu equipamento para conseguir tirar o melhor dela para tirar o melhor da composição.


Dito os 3 pilares da fotografia - S (exposição), F (abertura) e ISO - podemos partir para os finalmente, que será escolher a composição para sua fotografia.


Por fim, não tenha medo de explorar o lugar que você estiver, você encontrará grandes possibilidades em qualquer lugar, basta não ter medo de arriscar e de praticar, principalmente. Grandes fotógrafos ou grandes fotografias, são formadas por um conjunto de vivências e práticas únicas de cada um que são expostas em um clique de alguns segundos, ao qual se torna uma janela para a alma do artista e sua forma de ver e sentir o mundo e os elementos que os cercam. Caso você não tenha uma câmera modificada, ou equipamento profissional, deixaremos aqui um vídeo explicando de forma simples como fotografar a Via Láctea com o seu celular:




Matéria elaborada por Bianca Leroiz e Iago Siqueira, editores da Conexão GeoClima.

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